terça-feira , 19 setembro 2017
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Jornal Estado de Minas visita Famílias devastadas pela febre amarela em Novo Cruzeiro e região

Novo Cruzeiro – O labirinto de estradinhas de chão cobertas por pó se ramifica numa densa mata, que de tão fechada raramente dá frestas para se avistar casebres, currais ou plantações. Carros e motos, então, passam perdidos e esporádicos, levantando nuvens de poeira. Clóvis Lopes dos Santos, de 62 anos, morreu na última quarta-feira num rincão desses, a comunidade do Brejão, que fica a 20 quilômetros do Centro de Novo Cruzeiro, no Vale do Rio Jequitinhonha. Mesmo com a afirmação da Secretaria Municipal de Saúde de que a febre amarela foi a causa de seu óbito, em lugares como aquele a perda de um compadre ou conhecido faz com que a aparência desértica das roças seja quebrada pela lenta e constante chegada de gente que mora em grotas longínquas, atravessando trilhas tortuosas e cruzando pinguelas de córregos distantes. Aparecem trajando suas melhores vestes, levando flores silvestres nas mãos e garrafões de cachaça sob os braços, o típico funeral caboclo do interior mineiro.

 

Devido ao surto de febre amarela no estado, que já confirmou 40 mortes das 97 suspeitas (41%), cenas como essa se replicam pelas comunidades mais afastadas dos centros municipais nas regiões da Mata e dos vales dos rios Doce, Jequitinhonha e Mucuri, trazendo dor e insegurança para essa gente simples e pouco informada.A reportagem do Estado de Minas percorreu por 800 quilômetros as áreas mais afetadas pela febre amarela para mostrar como comunidades pacatas e praticamente isoladas foram devastadas pela doença. O pior surto já registrado no estado transformou cemitérios acanhados em locais muito frequentados, com covas recentes e outras sendo abertas, recebendo as flores de homenagem e as lágrimas de quem tem perdido num curto espaço de tempo os familiares e amigos. De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES), até a sexta-feira foram notificados 486 casos suspeitos de febre amarela, com 97 já confirmados e outros 370 ainda sendo investigados. Ao todo, essa doença viral, que não tem cura e é transmitida por mosquitos como o Haemagogus, o Sabethes e o Aedes aegypt, já se alastrou por 19 municípios confirmados e outros 60 com suspeitas, obrigando o Ministério da Saúde (MS) e a SES a mobilizarem equipes de apoio e a providenciar uma imunização de guerra com 1,7 milhão de doses de vacina sendo distribuídas e quase 1 milhão já aplicadas.

Um dos motivos de pânico entre a população é a dificuldade de informações claras. No município de Novo Cruzeiro, por exemplo, a SES registrou uma morte confirmada e oito notificadas, mas a Secretaria Municipal de Saúde contabilizou 15 óbitos suspeitos e 70 casos de doentes com sintomas. Na sede do município, a procura pela aplicação da vacina é grande e lota a Unidade Básica de Saúde (UBS). Uma equipe da Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS) incrementa as ações nos hospitais, a vacinação e a busca ativa nos locais mais ermos por pessoas que ainda não se vacinaram. Outras 15 equipes municipais fazem o mesmo trabalho.

Edésio Ferreira/EM/D.A PRESS

PRIMATAS MORTOS Com tanto medo de contágio e notícias de doentes nessas comunidades pequenas, a prosa de quem subia os morros para chegar ao velório de Clóvis só poderia ser mesmo a febre amarela. Como os macacos são reservatórios que contaminam os mosquitos, que são os transmissores para os homens, as pessoas começaram a se lembrar de casos de primatas encontrados mortos, mas a que ninguém dava importância. Apontando numa direção além dos morros florestados, o lavrador Adelino de Souza, de 66, recorda-se de alguns bichos encontrados sem vida. “Aqui atrás mesmo, perto da casa do Clóvis, tem a Grota dos Macacos. Acharam um punhado (de macacos) morto ali, outro perto do córrego”, lembra.

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O falecido vivia num apertado casebre de três cômodos, caiado de branco, com telhas de cerâmica moldadas nas coxas, portas e janelas de madeira rústica. Dezenas de vizinhos se apinhavam nas margens da trilha que desce do pasto para a moradia, já repleta de pessoas orando e trazendo seus pesares à esposa, Maria Nunes, de 54, e aos dois filhos, José e Raquel Lopes. O caixão do morto foi colocado na pequena sala, embaixo de uma cruz de metal e dos quadros de santos dependurados nas paredes revestidas de filó. Naquelas bandas, o velório dura a manhã e a tarde toda, com as pessoas consumindo cachaça e lembrando dos encontros com o falecido, o típico “beber o falecido”.

Maria acariciava a testa do esposo, recordando da história do casal e do amor pelos dois filhos que criaram. Ela ficou ao lado de Clóvis desde que ele adoeceu até o seu último suspiro. Uma batalha árdua e sofrida. “Misericórdia. Nunca vi alguém sofrer tanto assim com a febre. Ele pegava fogo e suava de molhar os lençóis e eu ia enxugando a pele dele até ensopar os lenços e toalhas que os enfermeiros traziam para mim. O Clóvis tremia e dava uns arrancos. Olhava para mim com os olhos amarelos que nem cera e depois não olhou mais nada e partiu para o lado de Deus”, lembra a viúva.

A mulher conta que o marido ia muito para os matagais para chegar nas roças e nos córregos da terra onde cresceu e, por isso, entrava em locais infestados de mosquitos. Num sábado, sentiu dores nas pernas e enjoo. Caiu de cama e sofreu com as dores e náuseas, até que conseguiram um carro para levá-lo ao hospital em Novo Cruzeiro, onde ficou por uma semana e morreu. “Era um pai bom, um homem trabalhador, que estava muito sozinho ultimamente”, suspira a mulher, que num lapso de realidade deixou o luto de lado para pedir ajuda. “Será que o senhor não consegue que venha aqui a prefeitura, pode ser, para bater um remédio nas casas para tirar os mosquitos daqui?”

VIDAS INTERROMPIDAS

 

Edésio Ferreira/EM/D.A PRESS

Ladainha – No centro do cemitério, debaixo de uma placa de cimento nova, foi sepultado Levindo Costa Alecrim, de 45 anos. Ao lado da demarcação, em outro túmulo, jaz o amigo inseparável Gilson Rodrigues Lopes, de 38. Pouco acima, montes paralelos de terra recente delimitam os locais onde foram enterrados os primos Valdevir Costa Alecrim, de 44, e Edmilson de Araújo Santos, de 43. Cada marco fúnebre desses encerrou a história de uma geração de amigos que cresceram juntos e tinham uma vida pacata nas roças do povoado do Açude, um território de ranchos simples e desconexos de Concórdia do Mucuri, o distrito de Ladainha que mais sofreu com o surto de febre amarela.

Em Minas Gerais, a cidade do Vale do Rio Mucuri é a detentora de mais óbitos e casos da doença que se alastrou pela zona rural, obrigando as autoridades sanitárias a um esforço que prometeu vacinar toda a população ainda nesta semana. De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde (SES), de 21 mortes suspeitas, 10 foram confirmadas para a febre amarela no município. Foram certificados 36 casos de pessoas doentes entre os 54 notificados. Valdevir e Edmilson já tiveram as mortes confirmadas pela febre, segundo a Secretaria Municipal de Saúde.

Edésio Ferreira/EM/D.A PRESS

Imunização O desespero das pessoas da zona rural fez com que as equipes dos dois postos de saúde de Concórdia do Mucuri se desdobrassem para atender os doentes e pessoas querendo imunização, que não paravam de aparecer. “Foi justamente no recesso que os casos começaram a surgir nas roças. E, como os médicos estavam todos de férias, não tínhamos como fazer o diagnóstico, só teria como se mandássemos as pessoas doentes para Ladainha”, lembra a enfermeira responsável pela Unidade Básica de Saúde (UBS) Jardim 1, Airani Ribeiro de Souza. “Quando as pessoas começaram a falecer e apareceram os primeiros primatas mortos, o posto ficou superlotado. Não tínhamos doses (de vacina) e as pessoas apavoraram. Houve tumultos, muita gente na fila quando a vacina acabava. O posto fecha às 17h, mas chegamos a trabalhar sem almoço todos os dias até as 19h, até dar conta de controlar a situação”, conta a enfermeira.

Na comunidade de Açude, as suspeitas de quem mora lá sobre a contaminação pela febre amarela, que pode ser a causa da morte dos quatro amigos, é uma mata que fica no alto do morro, antes do pequeno córrego que permeava a casa onde Levindo Costa Alecrim vivia sozinho, pois era divorciado. “Os quatro ficavam de prosa na varanda da casa dele. Amarravam o burro que montavam para o trabalho e ficavam juntos, pois eram amigos demais”, lembra um primo das vítimas, o lavrador Osmar Rodrigues, de 31. “Tinha muitos guaribas (macacos) na mata depois do córrego. E eles desciam, brincavam na casa, no quintal, na plantação. Os quatro brincavam com os bichos também. Daí começaram a aparecer guaribas mortos e eles sumiram dessas matas”, conta Osmar.

Edésio Ferreira/EM/D.A PRESS

Aflição Foi logo em seguida que o primeiro dos amigos, Gilson, adoeceu. Em seguida, Levindo ficou doente, depois Valdevir e, por último, Edmilson. “Foi rápido. Morreu Gilson, depois do enterro dele, já abriram a cova para o Levindo, e a gente ia a enterros todos os dias aqui. Todo mundo ficou cabreiro, porque achava que podia morrer, não sabíamos que era a febre e ninguém tinha vacinado ainda”, afirma Osmar. “Meu filho era simples, mexia com uma rocinha, umas duas vaquinhas, gostava das coisinhas dele”, lembra o lavrador Antônio Rodrigues Lopes dos Santos, de 66, pai de Gilson. “Na sexta-feira, a gente estava fincando um pau no curral. Ele conversou mais eu e começou a sentir uma dor na barriga, como uma disenteria, e depois as pernas moles. Levaram ele para o hospital e no domingo chegou só o corpo do meu filho”, lembra. “Desesperei. A gente não deve correr atrás de quem já morreu. Mas tinha de vacinar, porque estava todo mundo morrendo”, conta Antônio.

A mãe de Gilson foi passar uns dias em São Paulo, na casa da filha, para se recompor. O lavrador Antônio disse que esfria a cabeça na roça mesmo, fazendo o requeijão e trabalhando a terra. Como os demais parentes de vítimas, tem lembranças dos que se foram. O mesmo não ocorreu com o amigo Levindo. “Ele morreu, daí quatro dias a ex-mulher mandou desmanchar a casa, recolher as telhas e tudo mais. Não sobrou nada. Todo mundo ficou falando que foi desrespeito”, desabafa Osmar.

Até na comunidade mais afastada de Concórdia do Mucuri, chamada Três Ferros e distante 25 quilômetros do distrito, a doença fez vítimas entre os mais humildes lavradores. Uma das mais singelas cruzes, de madeiras cruzadas, tem o nome Otaviano esculpido a faca e pertence ao filho da lavradora Anita da Silva Silvério, de 60. As vítimas da febre amarela têm um impressionante índice de infecção de homens que chega a 88% dos casos confirmados. “Meu Otaviano era trabalhador, sério e responsável. Pegou essa doença trabalhando nas roças dos outros para sustentar a mulher, o menino de 7 anos e o bebê de 8 meses. O que essa doença deixou mais aqui em Ladainha foi mulheres sem maridos e crianças sem pai”, afirma.

MEDO SE ESPALHA NOS PEQUENOS POVOADOS

Piedade de Caratinga –
Desde que o lavrador Romildo Afonso da Silva, de 38 anos, morreu, no dia 8 deste mês, o pânico tomou conta das lavouras de Piedade de Caratinga, na região do Vale do Rio Doce. Até que se descobriu que ele tinha febre amarela e era um dos dois óbitos registrados na cidade, os lavradores simplesmente deixaram de trabalhar nas roças com medo de adoecer do mesmo mal. “Como a vacina leva ainda 10 dias para fazer efeito, as roças ficaram abandonadas. Mas acho que o que mais assustou foi a morte do Romildo, porque ele era um homem forte, que não caía por nada, trabalhador e pai exemplar. Meu marido mesmo só vai voltar para as nossas roças amanhã, porque não tem ainda prazo de vacina”, conta a irmã de Romildo, Ivanete Afonso da Silva Gonçalves, de 34. “Acho que ele foi picado nas grotas lá onde ele morava, no meio das roças de café, tem muitos macacos e mosquitos ali”, disse a irmã.

Antes de morrer, Romildo passou por nove dias de suplício e peregrinações pelo Pronto-Atendimento Médico (PAM) da cidade, hospital de Caratinga e transferência particular, depois, para Ipatinga, onde foi diagnosticado com febre amarela. “No sábado, ele amanheceu com febre de 39 graus e dores nas pernas. Não quis ir ao médico, mas no domingo já não aguentava mais e o levamos ao PAM (Pronto-Atendimento). Os médicos faziam e faziam exames, não diziam nada. Então, levamos pra Ipatinga. Foi lá que confirmaram que era a febre, mas disseram também que ele podia morrer a qualquer momento”, conta a esposa dele, a lavradora Luana Jurema da Silva Gonçalves, de 34.

“Até no último momento achei que ele ia conseguir, era forte, nunca tinha ficado doente. Pensava muito nele e no nosso filho, Gustavo Adriano, que tem 8 anos, como a gente faria sem ele. Não me despedi dele vivo, porque acreditei (que ele viveria) até quando estivemos juntos”, afirma a viúva. O filho do casal anda de bicicleta triste pelas estradas de terra, sem falar muito no assunto. “O menino era grudado no pai. Desde que nasceu, o pai fazia tudo por ele, dava banho, comida, trazia brinquedo, ensinava a soltar pipa e a andar de bicicleta. Ele está sem chão, só chora”, conta a tia do garoto, Ivanete.

Angústia “Não entendo por que ficaram cozinhando meu irmão tanto tempo, por que não transferiram ele do PAM para um hospital melhor. Ninguém estava falando ainda de vacina. Depois que ele morreu é que começou (a se falar). E todo mundo numa angústia danada, porque só depois de 10 dias é que faz efeito. Nossa mãe, a gente fica desorientada, sem saber se está picada ou se nossos filhos vão ser”, desabafa a irmã, Ivanete.

Com pouco mais de 8 mil habitantes, a pequena Piedade de Caratinga não figura entre os municípios que registraram numerosos casos de óbitos e doentes de febre amarela, mas a movimentação fúnebre no município é grande. Foram duas mortes e cinco casos confirmados até a última sexta-feira, mas o cemitério local já recebeu pelo menos sete mortos que podem ser doentes de febre amarela, ainda investigados.

Como o surto de febre tem se alastrado pelos lugares mais ermos dos municípios, acaba que o cemitério da cidade se tornou uma referência para comunidades de outros municípios pela sua proximidade. “Nos dias em que temos enterros, o pessoal vem todo, sai dos povoados e enterra só no cemitério. Todo mundo triste e é gente que quase ninguém aqui conhece porque são de povoados da região, de outros municípios, tem do Córrego do Manduca, do Córrego do Firmino, Córrego do Ouro, do município de Imbé, vêm porque aqui é mais perto”, conta o coveiro Júlio Marques.

FOnte: Estado de Minas

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